memória descritiva

O presente Caderno de Investigação Visual foi desenvolvido ao longo do semestre como um espaço de encontro entre o analógico e o digital, entre o gesto manual e o pensamento contemporâneo.

Statement Artístico

Este caderno nasceu de uma premissa simples. Responder a cada tema com um trabalho. Mas o que começou como exercício foi ganhando coerência. Percebi, a meio do processo, que havia um fio — a tensão entre o analógico e o digital — que atravessava tudo sem que eu o tivesse planeado assim.

A organização segue uma lógica cronológica e narrativa. O percurso inicia-se no cinema e na performance como linguagens expandidas do corpo e do tempo, passa pela cenografia, pela videoarte e pelas práticas pedagógicas potenciadas pelos media digitais, e culmina nos ecossistemas futuros da arte e na inteligência artificial — o ponto mais distante do gesto físico, e também onde o caderno se fecha sobre si mesmo, porque a última obra é um auto-retrato a meias com uma máquina.

Escolhi um site como suporte final. Não foi uma decisão neutral. O caderno existe em dois registos simultâneos: o analógico, visível nas imagens digitalizadas dos trabalhos; e o digital, presente na estrutura e na experiência interativa que o site proporciona. Quis que o suporte fizesse parte do argumento.

Memória Descrita e Enquadramento Global

Aula 1 — O Cinema na Arte Moderna

A abordagem ao cinema como linguagem expandida foi o ponto de partida do caderno. O foco recaiu sobre o cinema expressionista alemão, em particular O Gabinete do Dr. Caligari de Robert Wiene (1920) visionado em aula e Nosferatu de F. W. Murnau (1922) visionado em casa. Como exemplos fundadores de uma estética visual que extravasou o ecrã e influenciou profundamente as artes visuais do século XX. Nestes filmes, a cenografia distorcida, as sombras expressivas e a linha como instrumento de angústia psicológica revelam uma conceção do espaço cinematográfico que é, antes de tudo, uma conceção pictórica. A distorção e a sombra não surgem apenas como recursos formais, tornam-se instrumentos de poder e de controlo do olhar.

O trabalho desenvolvido partiu diretamente da iconografia de Dr. Caligari. As suas formas angulares, os contrastes violentos entre luz e sombra e a arquitetura impossível como base visual para um desenho preparatório concebido para ser executado em linogravura. Esta escolha técnica não foi arbitrária. A linogravura, com a sua exigência de síntese formal e o seu vocabulário de cheios e vazios, aproxima-se da matriz visual expressionista. O gesto de cortar o linóleo recupera a tensão gráfica que define esses filmes. Bem como, a linha que não suaviza, que incide, que deixa marca.

Este trabalho teve também uma aplicação pedagógica direta, pois foi utilizado como ponto de partida para introduzir a técnica de linogravura nas aulas de Educação Visual do 3.º ciclo. O expressionismo alemão funcionou assim como contexto histórico e visual para motivar os alunos, tornando a aprendizagem da técnica inseparável de uma reflexão sobre linguagem artística e intenção expressiva.

Aula 2 — Introdução à História da Performance

O enquadramento teórico desta aula percorreu a história da performance art desde as suas raízes dadaístas até às práticas contemporâneas. A análise partiu das performances sonoras de Hugo Ball no Cabaret Voltaire em 1916 — a voz como instrumento de subversão, o corpo como presença absurda e contestatária — e estendeu-se até à gestualidade física e visceral de Jackson Pollock, cuja técnica de drip painting transformou o ato de pintar numa performance em si mesma. Yoko Ono introduziu a dimensão da participação e da vulnerabilidade, enquanto Marina Abramović radicalizou o corpo como suporte, explorando os seus limites físicos e psicológicos como matéria artística. Esta genealogia, discutida e analisada em aula a partir de documentação em vídeo e do arquivo da Royal Academy of Arts, estabeleceu o quadro conceptual dentro do qual o trabalho foi desenvolvido.

A resposta criativa assumiu a forma de uma colagem analógica de inspiração dadaísta, convocando diretamente a técnica da fotomontagem de John Heartfield e Hannah Höch. Tal como estes pioneiros usaram recortes de jornais para subverter o discurso mediático e político da sua época, a minha peça parte de fragmentos da imprensa contemporânea para construir uma imagem crítica do mundo atual. A composição tem como figura central Donald Trump, rodeado de imagens de guerra, migração forçada e manchetes sobre colapso e desinformação. A mosca cartoonesca introduz a ironia e o humor negro que caracterizam a tradição dadaísta — o absurdo como forma de verdade e de contestação.

A escolha do preto e branco remete para a imprensa, o arquivo e a fotografia documental, reforçando a ideia de que este trabalho é feito com os materiais da realidade mediática e não apenas sobre ela. A colagem funciona como ação em si mesma. O corpo que age sobre os materiais está presente no resultado final, mesmo que invisível — o gesto efémero deixa fragmento, e o fragmento torna-se memória.

Aula 3 — Espaço e Iluminação: Cenografia — Es Devlin

O trabalho da cenógrafa Es Devlin constituiu o ponto de partida para uma reflexão sobre o espaço como linguagem artística. A sua prática demonstra que a cenografia não se limita a decorar, mas também constrói sentido. A luz, a escala, o vazio e a matéria são elementos dramaturgicamente ativos, que orientam o olhar e amplificam a presença de quem habita o espaço.

A resposta a este tema assumiu uma dimensão simultaneamente criativa e pedagógica. A partir dos princípios de construção espacial estudados, foi desenvolvido um projeto de cenário para um musical, aplicado diretamente nas aulas de Educação Visual do 3.º ciclo. O processo envolveu a construção física de maquetas em cartão, um material que, quando trabalhado com intenção, adquire uma presença expressiva própria. Esta escolha material foi ela própria uma tomada de posição: a matéria resiste, exige decisão, não permite o desfazer infinito do digital.

Este projeto foi um dos momentos mais significativos do caderno, precisamente pela forma como articulou teoria e prática de modo indissociável. Os alunos não aprenderam apenas sobre cenografia. Viveram o problema, construíram espaço e negociaram sentido coletivamente. Os conteúdos do mestrado tornaram-se, assim, uma ferramenta pedagógica viva.

Aula 4 — Novas Linguagens, Meios e Suportes: Videoarte

A videoarte colocou em questão o estatuto da imagem em movimento como forma artística autónoma. Para responder a este tema, foram desenvolvidos dois trabalhos que dialogam com dois polos fundamentais da videoarte: Nam June Paik e Bill Viola — o ecrã como espaço de subversão política e o corpo como espaço de contemplação e tempo.

O primeiro trabalho parte da apropriação de uma obra icónica de Nam June Paik, pioneiro da videoarte e da utilização escultórica do monitor de televisão, atualizando-a face à evolução tecnológica dos ecrãs contemporâneos. Os ecrãs passam a conter imagens do mundo atual — guerra, explosão, manipulação mediática e a oposição entre ‘fake news’ e ‘real facts’ — construindo um corpo mediático que é simultaneamente máquina de informação e de desinformação.

O segundo trabalho é uma homenagem ao universo visual de Bill Viola, utilizando a técnica de cianotipia para evocar a sua estética contemplativa, marcada pela presença do corpo, da lentidão e da suspensão temporal. A escolha da cianotipia usa a luz como agente de criação da imagem, em coerência com a forma como Viola trabalha a luminosidade no vídeo. Esta técnica foi também introduzida nas aulas de Educação Visual do 3.º ciclo, articulando a história da videoarte com uma prática fotográfica acessível e fisicamente envolvente.

Aula 5 — Práticas Pedagógicas Potenciadas pelos Media Digitais

O enquadramento teórico desta aula partiu do trabalho desenvolvido pelo CIAC — Centro de Investigação em Artes e Comunicação em torno das práticas pedagógicas potenciadas pelos media digitais, cruzando as estéticas do corpo e da performance com o espaço digital e virtual. A aula incluiu também a análise de um vídeo sobre aulas de artes visuais ministradas durante a pandemia, experiência que colocou em evidência as potencialidades e os limites do ensino artístico mediado por ecrã, levantando questões sobre presença, corpo e literacia visual em contexto de ensino remoto.

O trabalho desenvolvido apropria-se da lógica do videoclipe ‘Sit Down. Stand Up.’ dos Radiohead para construir uma peça vídeo onde diferentes imagens em trânsito são sobrepostas e sincronizadas entre si. O elemento sonoro central é o som de um carro em movimento — um som quotidiano que, ao ser repetido e sincronizado com os vídeos sobrepostos, estrutura a montagem e transforma o trânsito em metáfora do fluxo incessante de imagens que caracteriza a experiência contemporânea.

Esta entrada levanta a questão pedagógica central que o contexto pandémico tornou urgente. Como educar o olhar e o ouvido para a imagem em movimento? A resposta passa por criar, colocando os alunos no lugar do autor. A consciência de que o som, o ritmo e a montagem são escolhas de linguagem que constituem uma aprendizagem essencial para a literacia audiovisual.

Aula 6 — Futuros Ecossistemas da Arte: Metaversos e Arte

O enquadramento teórico desta aula partiu do relatório Future Art Ecosystems 2: Art x Metaverse (FAE2), produzido pela Serpentine Galleries, lançado em duas partes e complementado pelo projeto Evolver do coletivo Marshmallow Laser Feast. O FAE2 apresenta o metaverso como um ‘segundo’ mundo sempre online e uma megaestrutura emergente da internet, capaz de alterar profundamente a noção contemporânea de presença física e sistema digital. Neste contexto, interroga o que é exigido à infraestrutura cultural para moldar ativamente a evolução do metaverso.

Esta entrada constitui a exceção deliberada de todo o caderno. Embora haja alguns desenhos, a resposta ao tema exigiu criação dentro do próprio espaço virtual. O resultado foi Cosmos Orgânico, uma experiência interativa desenvolvida em p5.js e incorporada diretamente no site. A obra dialoga com referências como Refik Anadol e o coletivo teamLab, na forma como pensa o espaço digital como ecossistema vivo, imersivo e participativo.

Cosmos Orgânico parte da ideia de ecossistema como sistema dinâmico e interdependente. As partículas comportam-se como organismos que respondem ao movimento, ao tempo e à ação do utilizador, criando uma experiência de imersão que dissolve a fronteira entre autor e espectador. Num mundo onde os alunos habitam ecossistemas digitais de forma nativa, a escola precisa de aprender a criar dentro desses espaços, contribuindo ativamente para a infraestrutura cultural que o metaverso ainda está a construir.

Aula 7 — A IA na Educação

O enquadramento teórico desta aula partiu do webinar ‘A IA na sala de aula: a perspetiva do aluno e do professor’, inserido no ciclo Vamos desmistificar a IA na Educação? Promovido pelo movimento Educar Transforma da Porto Editora, com a participação da professora Liliana Fernandes e do aluno Daniel Ferreira, moderados por Marco Bento. O debate colocou em evidência os dois maiores desafios que a IA coloca ao ensino: integrá-la com intencionalidade pedagógica e desenvolver nos alunos um pensamento crítico face aos seus resultados.

A minha resposta criativa ao desafio nasceu de um gesto físico e deliberado. Realizei metade de um auto-retrato à mão, com marcadores azul, preto e vermelho, no estilo de scribbling que percorre todo o caderno. Posteriormente, foi pedido à inteligência artificial que completasse a outra metade — não com linhas desenhadas, mas com código binário.  Aqui fica o prompt utilizado ‘Complete the missing right half of this hand-drawn scribble portrait. The right half must be filled only with dense tiny binary code digits (0s and 1s) in dark teal color on white background — the binary numbers themselves must form the face, hair, beard and red glasses, following the exact same structure and proportions of the left hand-drawn side. Do not add any photorealistic face. Do not add any drawing lines on the right side. Only binary code digits forming the portrait shape.’

A coautoria que emerge desta obra não apaga a autoria humana — torna-a mais visível por contraste. A obra dialoga com o argumento central do webinar: a IA não deve substituir o processo criativo, mas pode ser integrada com intencionalidade pedagógica como ferramenta de pensamento crítico. O próprio prompt utilizado para orientar a máquina assume-se como gesto criativo e como nova forma de transformação da linguagem artística.

Reflexão Crítica Final

Não esperava que escrever sobre o trabalho fosse tão difícil. Fazer as peças foi mais intuitivo do que explicá-las. Mas esse esforço foi útil, obrigou-me a perceber o que estava realmente a fazer, para além do que parecia estar a fazer.

A principal aprendizagem foi que os conteúdos da arte contemporânea não ficam bem arrumados nos livros. Entram nas aulas, entram nas decisões que tomo quando estou a ensinar, entram nas ferramentas que proponho aos alunos. A linogravura a partir do expressionismo alemão, a cianotipia como homenagem a Viola, o cenário do musical a partir de Es Devlin — em todos estes casos, o mestrado foi diretamente para a sala de aula. Esta articulação entre investigação e prática letiva é, no fundo, o que este caderno procurou demonstrar.

A qualidade visual do portefólio não foi um objetivo em si mesmo.  Mas a consequência de um processo de exploração genuína na relação continua entre prática, contexto e intenção.